“Entra um português extremamente cansado e nervoso. Tem olhos encovados, a barba por fazer e está sujo, uma verdadeira personificação de impotência e abandono. Chama-se Humberto dos Anjos de Freitas Quental. É daqui, nasceu aqui – há mais ou menos cinquenta anos, calculo eu. Há uma semana, escapou para a Namíbia com a família. Deixou a mulher e os quatro filhos num acampamento para portugueses em Windhoek e decidiu voltar sozinho. Queria regressar porque a sua mãe tinha ficado em Pereira d’Eça [1]. A mãe dele tem oitenta e um anos e é dona de uma padaria há tantos anos quantos tem de vida o seu filho Humberto, que está aqui de pé, à nossa frente. Disse ao seu filho que não se ia embora e que continuaria a fazer pão, que é sempre necessário.
- E vocês próprios sabem – diz-nos Humberto – que em Pereira d’Eça têm pão fresco.
Sim, toda a unidade o sabe, vivendo como vivem do pão que faz aquela mulher e, além disso, não o pagando, porque este exército de libertação é de voluntários sem dinheiro. Quando ele partiu para ir levar a sua família para a Namíbia, a reserva de farinha estava a chegar ao fim e a sua mãe – que é surda e não compreende que se está em guerra e que, devido à idade avançada, já não compreende nada, a não ser que, enquanto o mundo for mundo as pessoas precisarão de pão – ordenou ao seu filho que voltasse com a farinha. Ficou ali sozinha; por isso, ele decidiu regressar e trazer-lhe farinha, que foi confiscada na fronteira, mas ele sabe que um camião com um carregamento de farinha chegou hoje de Lubango, o que significa que a sua mãe pode voltar a cozer pão e haverá de novo algo que comer de graça, porque ela não leva dinheiro.
- Nós todos adoramos aquela senhora, – diz Farrusco [2] – embora ela não esteja a nosso favor, mas é a favor da vida e do pão, o que basta. Os nossos trazem-lhe a água de que precisa. E trazem-lhe a lenha. E ela vai viver por tanto tempo quanto nós, ou talvez mais. Mas eu quero que tu contes a esta gente que veio de Lubango o que ouviste dizer em Windhoek e o que te disseram na estrada naquele lugar que se chama o quê?
- Chama-se Tsumeb – disse-lhe o filho da padeira – e fica a cerca de duzentos e cinquenta quilómetros daqui. Os portugueses que fugiram para lá dizem que brevemente o exército da África do Sul avançará sobre Angola e expulsará o MPLA. Diziam a mesma coisa em Windhoek. Diziam que o exército iniciaria a operação hoje, talvez amanhã. Têm veículos blindados e força aérea e ocuparão Luanda.
- Como o sabes? – perguntou Farrusco.
- É o que todos os portugueses dizem, – respondeu Humberto – embora seja segredo. Em Windhoek, vieram oficiais do exército sul-africano ao nosso acampamento perguntar quem tinha servido no exército e se alguém queria juntar-se às forças que iam atacar Angola. E em Tsumeb, no posto de gasolina, um branco disse-me que a cidade estava cheia de veículos blindados, que avançariam sobre Angola amanhã ou depois para acabar com os comunistas.
Farrusco disse ao filho da padeira que podia ir para casa. […]“
Kapuściński, Ryszard. 2007. Mais um dia de vida : Angola 1975. 2.ª edição ed. Porto: Campo de Letras. Pp. 54-55.
[1] Pereira d’Eça era uma pequena cidade situada no sul de Angola, no distrito de Cunene, a 31 quilómetros da Namíbia (na década de 1970 era o Sudoeste Africano). Tem actualmente o nome de Ondjiva ou N’Giva.
[2] Farrusco, filho de lavradores portugueses, foi, em 1975, comandante da única unidade do MPLA (com 120 elementos) “na frente do sul entre Lubango e a fronteira (450 quilómetros) e entre o Atlântico e a Zâmbia (1200 quilómetros)”.

