
Este avião vai para a Cidade do Cabo. Saiu de Londres e vai demorar 11 horas a chegar à Cidade do Cabo da Boa Esperança. Mas nunca mais chega e o dia já vai longo. Lisboa, a Figueira e Coimbra já estão a muitas milhas mas pesam no corpo. África está a nossos pés mas a muitos outros de distância. O destino nunca mais chega. O corpo cede. Aproveita uns lugares vagos e cai no esquecimento.
Se costuma frequentar locais públicos como balneários, ginásios, hotéis, termas, dever usar sempre chinelos próprios, para evitar o contacto com doenças fúngicas (micoses), que são facilmente transmissíveis.
Londres já ficou na Europa. Obrigaram-nos a descalçar no aeroporto de Londres. Alheios aos conselhos do Instituto Português de Reumatologia sujeitaram os nossos pés a uma convenção multicultural de fungos. Dizem que é mais seguro assim. Mas não se percebe a disparidade de regras. Entramos em Lisboa, em Roma ou em Luanda com sapatos e acabamos descalços em Londres. (O que até não faz sentido nenhum porque é muito mais frio.)
A Guerra ao Terror é assim, feita de pequenos feitos e muitos defeitos. Desempenhámos o nosso pequeno papel retirando os sapatos.
Voamos para longe desses conflitos. Estamos neste avião para ter o privilégio de escapar aos cabeçalhos de drama e tragédia por uns fugazes 20 dias. O corpo pesa. A alma também.
Onze horas num cubículo com asas. Com o nitrogénio a expandir-se dentro dos nossos corpos, os lábios a secarem e o discernimento a rarefazer-se tal como o oxigénio. Mas, vai valer a pena. Não por causa do tamanho da alma mas pelo mundo diferente que nos aguarda. As paisagens nos guias de viagem fazem sonhar mas a realidade tem mais matizes e sons e cheiros e imperfeições. A realidade é desassossegada.






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