Cape to Delta

Ecos de Tsumeb em 1975

Janeiro 7, 2008 · 1 Comentário

“Entra um português extremamente cansado e nervoso. Tem olhos encovados, a barba por fazer e está sujo, uma verdadeira personificação de impotência e abandono. Chama-se Humberto dos Anjos de Freitas Quental. É daqui, nasceu aqui – há mais ou menos cinquenta anos, calculo eu. Há uma semana, escapou para a Namíbia com a família. Deixou a mulher e os quatro filhos num acampamento para portugueses em Windhoek e decidiu voltar sozinho. Queria regressar porque a sua mãe tinha ficado em Pereira d’Eça [1]. A mãe dele tem oitenta e um anos e é dona de uma padaria há tantos anos quantos tem de vida o seu filho Humberto, que está aqui de pé, à nossa frente. Disse ao seu filho que não se ia embora e que continuaria a fazer pão, que é sempre necessário.

- E vocês próprios sabem – diz-nos Humberto – que em Pereira d’Eça têm pão fresco.

Sim, toda a unidade o sabe, vivendo como vivem do pão que faz aquela mulher e, além disso, não o pagando, porque este exército de libertação é de voluntários sem dinheiro. Quando ele partiu para ir levar a sua família para a Namíbia, a reserva de farinha estava a chegar ao fim e a sua mãe – que é surda e não compreende que se está em guerra e que, devido à idade avançada, já não compreende nada, a não ser que, enquanto o mundo for mundo as pessoas precisarão de pão – ordenou ao seu filho que voltasse com a farinha. Ficou ali sozinha; por isso, ele decidiu regressar e trazer-lhe farinha, que foi confiscada na fronteira, mas ele sabe que um camião com um carregamento de farinha chegou hoje de Lubango, o que significa que a sua mãe pode voltar a cozer pão e haverá de novo algo que comer de graça, porque ela não leva dinheiro.

- Nós todos adoramos aquela senhora, - diz Farrusco [2] – embora ela não esteja a nosso favor, mas é a favor da vida e do pão, o que basta. Os nossos trazem-lhe a água de que precisa. E trazem-lhe a lenha. E ela vai viver por tanto tempo quanto nós, ou talvez mais. Mas eu quero que tu contes a esta gente que veio de Lubango o que ouviste dizer em Windhoek e o que te disseram na estrada naquele lugar que se chama o quê?

- Chama-se Tsumeb – disse-lhe o filho da padeira – e fica a cerca de duzentos e cinquenta quilómetros daqui. Os portugueses que fugiram para lá dizem que brevemente o exército da África do Sul avançará sobre Angola e expulsará o MPLA. Diziam a mesma coisa em Windhoek. Diziam que o exército iniciaria a operação hoje, talvez amanhã. Têm veículos blindados e força aérea e ocuparão Luanda.

- Como o sabes? – perguntou Farrusco.

- É o que todos os portugueses dizem, - respondeu Humberto – embora seja segredo. Em Windhoek, vieram oficiais do exército sul-africano ao nosso acampamento perguntar quem tinha servido no exército e se alguém queria juntar-se às forças que iam atacar Angola. E em Tsumeb, no posto de gasolina, um branco disse-me que a cidade estava cheia de veículos blindados, que avançariam sobre Angola amanhã ou depois para acabar com os comunistas.

Farrusco disse ao filho da padeira que podia ir para casa. […]“

Kapuściński, Ryszard. 2007. Mais um dia de vida : Angola 1975. 2.ª edição ed. Porto: Campo de Letras. Pp. 54-55.

[1] Pereira d’Eça era uma pequena cidade situada no sul de Angola, no distrito de Cunene, a 31 quilómetros da Namíbia (na década de 1970 era o Sudoeste Africano). Tem actualmente o nome de Ondjiva ou N’Giva.

[2] Farrusco, filho de lavradores portugueses, foi, em 1975, comandante da única unidade do MPLA (com 120 elementos) “na frente do sul entre Lubango e a fronteira (450 quilómetros) e entre o Atlântico e a Zâmbia (1200 quilómetros)”.

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  • Osvaldo Marques // Maio 2, 2008 às 2:54 pm

    É bom ler algo sobre a terra onde outrora vivemos. “Pereira d’Eça é uma povoação situada no sul de Angola, no distrito de Cunene, a 31 quilómetros da Namíbia. Tem actualmente o nome de Ondjiva ou N’Giva”. Pereira d’Eça, não era uma era uma povoação, mas sim uma cidade. Uma cidade pequena no tamanho, mas grande em valores humanos. Grande abraço para todos os Cuanhamas e a todos que se sentem Cunhamas.

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